Quando dois transtornos aparecem juntos: TDAH e dislexia

TDAH e dislexia juntos: quando os dois transtornos aparecem ao mesmo tempo
TDAH Dislexia Leitura: ~7 min

TDAH e dislexia juntos: quando os dois transtornos aparecem ao mesmo tempo

Dois dos transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns — e que frequentemente caminham juntos. Entender como eles se relacionam é essencial para um diagnóstico preciso e uma intervenção eficaz.

Imagine uma criança que não consegue prestar atenção durante a leitura e também tem muita dificuldade para decifrar as palavras. Os pais ficam em dúvida: é TDAH? É dislexia? São os dois? Os professores observam comportamentos que poderiam ser de qualquer um dos dois transtornos — ou de nenhum. E enquanto essa dúvida persiste, o suporte adequado demora a chegar.

Essa situação é muito mais comum do que parece. TDAH e dislexia são dois dos transtornos do neurodesenvolvimento mais prevalentes na infância — e há uma sobreposição significativa entre eles. Compreender essa relação não é apenas um detalhe técnico: é o que determina se a criança vai receber o tipo certo de ajuda.

25–40% das pessoas com TDAH ou dislexia apresentam os dois transtornos em comorbidade (Teses USP, 2022)
25% das crianças com TDAH apresentam algum transtorno específico de aprendizagem associado (SciELO/JBPSIQ)
88% de correlação entre déficit de atenção e problemas de aprendizagem em crianças com TDAH (SciELO/Salvador)

Por que eles aparecem juntos com tanta frequência?

A resposta está na neurobiologia. TDAH e dislexia compartilham fatores de risco genéticos e etiológicos — em outras palavras, parte das mesmas bases neurológicas estão envolvidas no desenvolvimento dos dois transtornos. Isso não significa que um causa o outro, mas que o mesmo terreno genético pode favorecer o surgimento de ambos.

Há consenso crescente na comunidade científica de que a comorbidade entre transtornos do neurodesenvolvimento não é a exceção — é a norma. Ver TDAH e dislexia como transtornos completamente separados, que nunca se misturam, é uma visão ultrapassada e clinicamente problemática.

"A comorbidade de sintomas e déficits em transtornos do neurodesenvolvimento não é a exceção, mas a norma."

Dois mecanismos cognitivos são especialmente relevantes nessa relação: a memória de trabalho e a velocidade de processamento. Ambos são comprometidos tanto no TDAH quanto na dislexia — o que explica por que a combinação dos dois transtornos tende a amplificar as dificuldades em vez de apenas somá-las.

Semelhanças, diferenças e o que muda na comorbidade

Apesar de compartilharem algumas características, TDAH e dislexia têm origens e manifestações distintas. Entender o que é de cada um — e o que muda quando os dois coexistem — é fundamental para o diagnóstico diferencial.

TDAH
Dificuldade de atenção sustentada
Impulsividade e hiperatividade
Desorganização e esquecimentos
Velocidade de processamento lenta
Leitura afetada pela desatenção
Dislexia
Dificuldade na decodificação fonológica
Leitura lenta e imprecisa
Erros ortográficos persistentes
Memória operacional comprometida
Atenção geralmente preservada
Quando os dois coexistem
Dificuldades de leitura amplificadas
Maior comprometimento ortográfico
Funções executivas mais afetadas
Diagnóstico mais difícil e demorado
Intervenção precisa ser dupla

Como a comorbidade afeta o dia a dia

Quando TDAH e dislexia coexistem, os impactos não se somam — eles se multiplicam. Uma criança que já tem dificuldade para decodificar palavras por causa da dislexia e que também não consegue manter o foco durante a leitura por causa do TDAH enfrenta uma barreira dupla em cada momento de aprendizagem.

Áreas mais afetadas na comorbidade

Leitura e escrita

Precisão e velocidade de leitura ainda mais comprometidas, com maior frequência de erros de omissão e troca de palavras.

Funções executivas

Planejamento, organização e memória de trabalho são as áreas mais afetadas — essenciais para qualquer tarefa acadêmica.

Autoestima e saúde mental

Dificuldades dobradas geram frustrações dobradas. Ansiedade, baixa autoestima e aversão ao ambiente escolar são consequências frequentes.

Diagnóstico tardio

Os sintomas de um transtorno podem mascarar ou ser confundidos com os do outro, atrasando o diagnóstico correto por anos.

O desafio do diagnóstico diferencial

Um dos maiores riscos clínicos nessa combinação é o diagnóstico incompleto. É comum que apenas um dos transtornos seja identificado — geralmente o TDAH, por ser mais visível comportamentalmente — enquanto a dislexia permanece não diagnosticada por anos. O contrário também acontece: a criança recebe tratamento para dislexia, mas as dificuldades de atenção continuam sem intervenção.

O diagnóstico preciso da comorbidade exige uma avaliação multiprofissional abrangente, que investigue especificamente os dois transtornos de forma independente.

1

Avaliação neuropsicológica

Mapeamento das funções cognitivas — memória de trabalho, velocidade de processamento, atenção e funções executivas — que permite distinguir o perfil de cada transtorno.

2

Avaliação fonoaudiológica

Investigação específica das habilidades de leitura, escrita, consciência fonológica e nomeação rápida — marcadores centrais da dislexia.

3

Avaliação psicopedagógica

Análise do processo de aprendizagem em contexto real — como a criança aprende, onde trava e quais estratégias já usa de forma compensatória.

4

Avaliação neuropediátrica ou psiquiátrica

Confirmação dos critérios diagnósticos do TDAH, investigação de comorbidades psiquiátricas e avaliação da indicação de tratamento medicamentoso.

Como é feita a intervenção quando os dois coexistem

A comorbidade exige uma intervenção que contemple os dois transtornos de forma integrada. Tratar apenas o TDAH sem abordar a dislexia — ou vice-versa — produz resultados parciais e frustrantes. O ideal é que a equipe profissional trabalhe de forma articulada, com comunicação entre os envolvidos.

Fonoaudiologia

Intervenção fonológica

Treino de consciência fonológica, fluência leitora e habilidades de escrita — abordagem específica para a dislexia.

Psicopedagogia

Estratégias de aprendizagem

Adaptação do processo de estudo ao perfil da criança, considerando as limitações do TDAH e da dislexia simultaneamente.

Psicologia

Suporte emocional

Trabalho com autoestima, ansiedade e regulação emocional — consequências frequentes da comorbidade não tratada.

Escola

Adaptações pedagógicas

Tempo extra, materiais adaptados, avaliações diferenciadas e parceria com a família para garantir consistência entre os ambientes.

Olhar psicopedagógico

Na prática clínica, o que mais me chama atenção nos casos de comorbidade é a quantidade de anos que muitas crianças passam sem o diagnóstico completo. O TDAH é identificado, a medicação é iniciada, o comportamento melhora — mas as dificuldades de leitura persistem. A família não entende por quê. A escola continua cobrando. E a dislexia, silenciosamente, segue sem intervenção. Por isso, quando chega uma criança com TDAH e dificuldades acadêmicas persistentes mesmo com tratamento, o primeiro passo é sempre investigar se há um transtorno de aprendizagem associado. A comorbidade muda tudo na intervenção.

Dois transtornos juntos não significam o dobro do problema — significam que a criança precisa do dobro de compreensão, do dobro de suporte e de profissionais que enxerguem o quadro completo.

Referências
  • SILVA, A. C. F. et al. TDAH e dislexia em adultos: avaliação das habilidades cognitivas e fonológicas. Teses USP, 2022. Disponível em: teses.usp.br [Citado no dado de 25–40% de comorbidade]
  • SEMRUD-CLIKEMAN et al. (1992). Apud: SCIELO/JBPSIQ — Dificuldades no diagnóstico de TDAH em crianças. Disponível em: scielo.br [Citado no dado de 25% das crianças com TDAH e transtorno de aprendizagem]
  • VASCONCELOS et al. (2005). Estudo piloto da prevalência do TDAH entre crianças escolares em Salvador, BA. Arquivos de Neuropsiquiatria — SciELO. Disponível em: scielo.br [Citado no dado de 88% de correlação entre déficit de atenção e problemas de aprendizagem]
  • BOADA et al. (2012). Apud: SÁNCHEZ, M. C. Qual é a relação entre TDAH e dislexia? Neuronup, 2024. Disponível em: neuronup.com [Citado na afirmação de que comorbidade é a norma]
  • DINIZ, J. M.; CORREA, J.; MOUSINHO, R. (2020). Apud: Evidências da comorbidade entre Transtornos de Aprendizagem e TDAH. Psicologia em Ênfase — UNIALFA, 2021. Disponível em: ojs.unialfa.com.br [Citado nos impactos da comorbidade em leitura, ortografia e memória]

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