TDAH e dislexia juntos: quando os dois transtornos aparecem ao mesmo tempo
Dois dos transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns — e que frequentemente caminham juntos. Entender como eles se relacionam é essencial para um diagnóstico preciso e uma intervenção eficaz.
Imagine uma criança que não consegue prestar atenção durante a leitura e também tem muita dificuldade para decifrar as palavras. Os pais ficam em dúvida: é TDAH? É dislexia? São os dois? Os professores observam comportamentos que poderiam ser de qualquer um dos dois transtornos — ou de nenhum. E enquanto essa dúvida persiste, o suporte adequado demora a chegar.
Essa situação é muito mais comum do que parece. TDAH e dislexia são dois dos transtornos do neurodesenvolvimento mais prevalentes na infância — e há uma sobreposição significativa entre eles. Compreender essa relação não é apenas um detalhe técnico: é o que determina se a criança vai receber o tipo certo de ajuda.
Por que eles aparecem juntos com tanta frequência?
A resposta está na neurobiologia. TDAH e dislexia compartilham fatores de risco genéticos e etiológicos — em outras palavras, parte das mesmas bases neurológicas estão envolvidas no desenvolvimento dos dois transtornos. Isso não significa que um causa o outro, mas que o mesmo terreno genético pode favorecer o surgimento de ambos.
Há consenso crescente na comunidade científica de que a comorbidade entre transtornos do neurodesenvolvimento não é a exceção — é a norma. Ver TDAH e dislexia como transtornos completamente separados, que nunca se misturam, é uma visão ultrapassada e clinicamente problemática.
"A comorbidade de sintomas e déficits em transtornos do neurodesenvolvimento não é a exceção, mas a norma."
Dois mecanismos cognitivos são especialmente relevantes nessa relação: a memória de trabalho e a velocidade de processamento. Ambos são comprometidos tanto no TDAH quanto na dislexia — o que explica por que a combinação dos dois transtornos tende a amplificar as dificuldades em vez de apenas somá-las.
Semelhanças, diferenças e o que muda na comorbidade
Apesar de compartilharem algumas características, TDAH e dislexia têm origens e manifestações distintas. Entender o que é de cada um — e o que muda quando os dois coexistem — é fundamental para o diagnóstico diferencial.
Como a comorbidade afeta o dia a dia
Quando TDAH e dislexia coexistem, os impactos não se somam — eles se multiplicam. Uma criança que já tem dificuldade para decodificar palavras por causa da dislexia e que também não consegue manter o foco durante a leitura por causa do TDAH enfrenta uma barreira dupla em cada momento de aprendizagem.
Leitura e escrita
Precisão e velocidade de leitura ainda mais comprometidas, com maior frequência de erros de omissão e troca de palavras.
Funções executivas
Planejamento, organização e memória de trabalho são as áreas mais afetadas — essenciais para qualquer tarefa acadêmica.
Autoestima e saúde mental
Dificuldades dobradas geram frustrações dobradas. Ansiedade, baixa autoestima e aversão ao ambiente escolar são consequências frequentes.
Diagnóstico tardio
Os sintomas de um transtorno podem mascarar ou ser confundidos com os do outro, atrasando o diagnóstico correto por anos.
O desafio do diagnóstico diferencial
Um dos maiores riscos clínicos nessa combinação é o diagnóstico incompleto. É comum que apenas um dos transtornos seja identificado — geralmente o TDAH, por ser mais visível comportamentalmente — enquanto a dislexia permanece não diagnosticada por anos. O contrário também acontece: a criança recebe tratamento para dislexia, mas as dificuldades de atenção continuam sem intervenção.
O diagnóstico preciso da comorbidade exige uma avaliação multiprofissional abrangente, que investigue especificamente os dois transtornos de forma independente.
Avaliação neuropsicológica
Mapeamento das funções cognitivas — memória de trabalho, velocidade de processamento, atenção e funções executivas — que permite distinguir o perfil de cada transtorno.
Avaliação fonoaudiológica
Investigação específica das habilidades de leitura, escrita, consciência fonológica e nomeação rápida — marcadores centrais da dislexia.
Avaliação psicopedagógica
Análise do processo de aprendizagem em contexto real — como a criança aprende, onde trava e quais estratégias já usa de forma compensatória.
Avaliação neuropediátrica ou psiquiátrica
Confirmação dos critérios diagnósticos do TDAH, investigação de comorbidades psiquiátricas e avaliação da indicação de tratamento medicamentoso.
Como é feita a intervenção quando os dois coexistem
A comorbidade exige uma intervenção que contemple os dois transtornos de forma integrada. Tratar apenas o TDAH sem abordar a dislexia — ou vice-versa — produz resultados parciais e frustrantes. O ideal é que a equipe profissional trabalhe de forma articulada, com comunicação entre os envolvidos.
Intervenção fonológica
Treino de consciência fonológica, fluência leitora e habilidades de escrita — abordagem específica para a dislexia.
Estratégias de aprendizagem
Adaptação do processo de estudo ao perfil da criança, considerando as limitações do TDAH e da dislexia simultaneamente.
Suporte emocional
Trabalho com autoestima, ansiedade e regulação emocional — consequências frequentes da comorbidade não tratada.
Adaptações pedagógicas
Tempo extra, materiais adaptados, avaliações diferenciadas e parceria com a família para garantir consistência entre os ambientes.
Na prática clínica, o que mais me chama atenção nos casos de comorbidade é a quantidade de anos que muitas crianças passam sem o diagnóstico completo. O TDAH é identificado, a medicação é iniciada, o comportamento melhora — mas as dificuldades de leitura persistem. A família não entende por quê. A escola continua cobrando. E a dislexia, silenciosamente, segue sem intervenção. Por isso, quando chega uma criança com TDAH e dificuldades acadêmicas persistentes mesmo com tratamento, o primeiro passo é sempre investigar se há um transtorno de aprendizagem associado. A comorbidade muda tudo na intervenção.
Dois transtornos juntos não significam o dobro do problema — significam que a criança precisa do dobro de compreensão, do dobro de suporte e de profissionais que enxerguem o quadro completo.
- SILVA, A. C. F. et al. TDAH e dislexia em adultos: avaliação das habilidades cognitivas e fonológicas. Teses USP, 2022. Disponível em: teses.usp.br [Citado no dado de 25–40% de comorbidade]
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- VASCONCELOS et al. (2005). Estudo piloto da prevalência do TDAH entre crianças escolares em Salvador, BA. Arquivos de Neuropsiquiatria — SciELO. Disponível em: scielo.br [Citado no dado de 88% de correlação entre déficit de atenção e problemas de aprendizagem]
- BOADA et al. (2012). Apud: SÁNCHEZ, M. C. Qual é a relação entre TDAH e dislexia? Neuronup, 2024. Disponível em: neuronup.com [Citado na afirmação de que comorbidade é a norma]
- DINIZ, J. M.; CORREA, J.; MOUSINHO, R. (2020). Apud: Evidências da comorbidade entre Transtornos de Aprendizagem e TDAH. Psicologia em Ênfase — UNIALFA, 2021. Disponível em: ojs.unialfa.com.br [Citado nos impactos da comorbidade em leitura, ortografia e memória]

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